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![]() Apresenta��oUm livro escrito por uma crian�a? Ou por uma m�e? Um livro escrito por uma filha, uma pedagoga ou por uma professora? 'Pretextos do Cora��o' � justamente isso: um conjunto de raz�es que faz com que a menina, a amiga, a companheira, a m�e e a mulher externem seus sentimentos, seus pensamentos, sua indigna��o com a injusti�a cotidiana. Esse olhar feminino nos revela a beleza nas coisas simples: na aten��o a um filhote de vira latas, na aventura das crian�as espiando pelo buraco do banheiro, ou mesmo da menina se entrando no mar pela primeira vez. Ao mesmo tempo, disseca diante de n�s a solid�o, a dor, a resigna��o em continuar em frente, caracter�sticas muitas vezes comuns a tantas brasileiras... Suzana Nunes consegue tecer reflex�es sobre temas cotidianos, ora evocando lembran�as, ora arrancando gargalhadas do leitor! Aproveite a viagem. Voc� est� em muito boa companhia. Voc� logo vai se convencer que um livro t�o gostoso assim... S� poderia ter sido escrito por uma Mulher mesmo! 1. Subornando Crian�a
Chupei bico at� os cinco anos. E pior que n�o era um s�, eram tr�s, um amarrado no outro com uma cordinha que j� estava at� encardida, tinha trocado de cor. Um eu chupava, o outro eu apertava e o terceiro eu cheirava, um cheirinho azedo. Depois de toda a insist�ncia pra que eu abandonasse o h�bito que viria a me prejudicar os dentes, minha m�e desistiu e minha tia resolveu me subornar. Ali�s, coisa muito comum, que fazemos sempre com as crian�as, coisa feia! Enfim, prometeu me levar junto na viagem de f�rias, ela e o marido rec�m-casados. Minas Gerais, Petr�polis e no final Angra dos Reis, para eu conhecer o mar, tudo isso se eu jogasse fora meu bico. Topei na hora, mandei longe. Viva o suborno! O passeio em Minas foi inesquec�vel, nadei na cachoeira, subi morro, comi todas aquelas comidas gostosas, perfeito. L� em Petr�polis, depois de ir ao banheiro com a porta trancada � como uma boa mocinha deve fazer � percebi que n�o alcan�ava a cordinha da descarga e subi no vaso sanit�rio para puxar, toda independente. Resultado: o vaso estava solto, ca�mos eu, vaso, quebrou-se tudo e tr�s pontos no ded�o do p�, fora a porta arrombada, claro, pois estava trancada. Nem comento a goza��o que tive que aguentar o resto da viagem, se duvidar at� hoje ainda riem de mim. Crian�a sofre! Triste da vida, morrendo de vergonha, sentindo uma dor dos infernos, l� fui eu acabrunhada pra Angra, chateada por n�o poder entrar na �gua, na minha primeira vez na praia, poxa vida... Ai que saudade dos meus tr�s bicos... Sentada l�, vendo todas as crian�as pulando as ondinhas, olhava para o meu ded�o enfaixado e pensava no bico. Que raiva... Isso que d� querer mostrar que � grande. De repente, olho para os tios, distra�dos, nem me olhavam. Olho para o mar, me chamando, para o ded�o... e l� vou eu! Quando eles viram, j� era tarde, ded�o latejando, esparadrapo flutuando, e eu l�, feliz por ter aproveitado meu suborno como deveria... Ah, todo mundo sabe que �gua do mar cura tudo mesmo... 2. A Lembran�a de Maior Valor
Nunca gostei do Dia dos Pais. Desde que me entendo por gente, tenho que dar a mesma explica��o �s pessoas: �Meu pai morreu quando eu tinha tr�s anos. Quase n�o me lembro dele.� Minha vontade era fazer uma pilha de panfletos e distribuir de uma vez, pra n�o precisar repetir. Na escola, quando chegava agosto, as professoras logo se assanhavam e come�avam a inventar musiquetas, teatrinhos, cart�es, tudo para as crian�as homenagearem os papais. E eu ficava com vontade de sair correndo, me esconder em casa, mas era for�ada a participar. Eu mesma me for�ava, para n�o dar o bra�o a torcer. Sorte a minha que para os pais nunca fazem tanta festa quanto para as m�es, e por isso na maioria das vezes era s� um cart�o, mesmo. Eu os entregava para um tio, que muitas vezes cuidou de mim enquanto minha m�e trabalhava. Mas o n� na garganta do�a. Poucas lembran�as restaram-me do meu pai. Uma delas era a dele me pegando no colo, outra dele no esquife, que para mim era uma �caixinha�, e a outra dele me contando hist�rias - esta a mais forte de todas. Na verdade, n�o me lembro mais das duas primeiras, s� sei por que escrevi em meu di�rio. Mas lembro-me ainda dele sentado � beira da cama, que ficava colada em um guarda-roupa, lendo um livro para mim. Grudado no guarda-roupa havia uns desenhos feitos pelo meu irm�o mais velho, entre eles um do Z� Carioca, todo verdinho. Quando falo do meu pai, a primeira imagem que me vem � mente � a do Z� Carioca. Era pra onde eu olhava enquanto ele lia... Apesar de darmos nossa vida nos sacrificando pelos filhos, e gastarmos longas horas trabalhando para prover suas necessidades, apesar de perdermos o sono quando ficam doentes, e nos preocuparmos com tudo que se relaciona a seu bem-estar, enquanto eles constroem seu �banco de mem�ria emocional�, o que ficar� mais forte ser� justamente aqueles momentos em que n�s paramos de trabalhar e passamos nosso tempo a seu lado fazendo coisas simples. Dos tr�s anos que meu pai esteve comigo, a �nica imagem que sobrou foi a de um quarto, � meia-luz, onde ele resolveu doar-me dez minutos do seu tempo e ser exclusivamente meu. E um papagaio de carona. Quando nossos filhos tiverem suas pr�prias crian�as, passar�o a valorizar melhor os esfor�os que hoje fazemos por eles. Mas quando fecharem os olhos, a imagem que vir� provavelmente ser� uma daquelas a que n�o damos muito valor, e para a qual quase nunca temos tempo. Baseada em minha experi�ncia pessoal, fico imaginando que imagens meus filhos guardar�o. Uma brincadeira de esconde-esconde, uma pipoca, uma figura que colorimos juntos - uma destas, certamente ficar�. E espero que justamente nesta eu n�o esteja com pressa de acabar logo para lavar a lou�a. Pois ela se transformar� num tesouro sem pre�o para a vida inteira, assim como aquela que guardo de meu pai, para sempre. As crian�as n�o s�o adultos em miniatura. Elas t�m um jeito todo particular de processar os sentimentos, de aprender, de perceber o mundo. Precisam de presen�a, de contato, de cores, de cheiros, para crescer e se tornar maduras emocionalmente - muito mais do que seguran�a material e pais ausentes como pre�o. E sorte de quem consegue perceber isso antes que cres�am. 3. O Menino e a Saudade
Ele era meu amigo mais chegado, nos tempos de molecagem. T�nhamos alguns anos de diferen�a, mas ainda assim �ramos companheiros de segredos e traquinagens. Sub�amos em �rvores, corr�amos pela rua despreocupados, bons tempos... Uma vez, descobrimos um cano d'�gua que vinha da rua de cima, quebrado... E descobrimos tamb�m que quando jog�vamos uma pedrinha l� dentro, que barulho engra�ado fazia! Da� a jogar trezentas foi um pulo. Logo esquecemos a brincadeira, e no outro dia ouvimos, sem entender, aquela zoeira de tratores chegando, de homens cavando, britadeiras... Nunca contamos nosso segredo a ningu�m, s� depois de adultos... Mas na verdade, sent�ramos uma pontinha de orgulho em sermos n�s dois, os entupidores da rua... Meu primo desenvolveu uma t�cnica muito aprimorada de roubar peixinhos dourados na loja de agropecu�ria, e por isso ficou famoso entre a turma. Ele chegava, como quem n�o queria nada, parecendo uma daquelas crian�as que ficam hipnotizadas pelos bichinhos... Que nada!!! Era ele a hipnotizar... Enfiava a m�ozinha branca com uma velocidade impressionante e sa�a em disparada, com o peixinho apertado entre os dedos, o qual chegava, muitas vezes, mortinho da silva em casa, pela press�o exercida sem maldade, no susto da corrida. Mas alguns se salvaram. Eram como trof�us. At� que um dia minha tia descobriu, com a contribui��o do dono da agropecu�ria. Acabou-se a cole��o e a festa. Noutra vez, bolamos um plano infal�vel: resolvemos cavar um buraco na parede que �a do quarto do meu tio at� o banheiro, entre um velho arm�rio da minha av� e algumas vassouras. Trabalhamos por semanas, medindo e calculando tudo meticulosamente. �ramos pequenos, a empreitada era arriscada e desafiadora. Quando finalmente conseguimos, passamos a fazer os testes. Ele foi para o banheiro olhar, conferir se calcul�ramos a dire��o exata do vaso sanit�rio. Eu de olho no buraco, vejo uma coisa estranha aparecer, e um jato quente no meu olho! Urinou, traiu a pr�pria companheira de trabalho! Inesquec�vel... Da� pra frente foi um divertimento sem fim. Vimos toda a fam�lia pelada, morrendo de rir. Vimos nosso av� b�bado - n�o, tr�bado - fingindo que tomava banho, durante dias. Nossa av�, tio, tias, primos, "todo mundo como veio ao mundo". Era s� algu�m amea�ar tomar o rumo do banheiro que l� �amos n�s, "ventando", como dizia a "v�". De vez em quando apareciam inconvenientes anteninhas de barata no nosso observat�rio secreto, as quais espant�vamos com gravetos e assopros. Um dia minha av� descobriu o buraco, e impiedosamente mandou tapar com massa. Assistimos com tristeza. Uma pena... Chupamos muita manga verde com sal, escondidos na escada atr�s de casa, pra n�o apanhar. Rimos, choramos, enterramos juntos meu porquinho-da-�ndia, morto por um cachorro da rua, e depois, n�o demos paz ao cachorro. Hoje, meu primo e eu quase n�o nos vemos mais, � coisa rara. Ele tem muitos compromissos com a igreja, e eu com meus filhos, a vida vai passando. N�o que moremos longe, � ali mesmo, a quinze minutos daqui . No entanto, a correria da vida � que se traduz na maior dist�ncia entre as pessoas. Mas a amizade ing�nua e descompromissada dos tempos da inf�ncia permaneceu no cora��o. Em sua homenagem, registrei meu filho mais novo com seu nome, sob protestos de "coitado do menino!" Ainda n�o encontrei uma amizade mais sincera do que a que tivemos, mais profunda, mais satisfat�ria. No entanto, cansei de procurar o amigo ideal. Ele j� existe, cresceu, tomou corpo, e saiu pela vida, ficando sem tempo pra n�s. S� que eu ainda sinto falta... Hoje � seu anivers�rio, vinte e cinco anos, e eu n�o apareci na sua casa, n�o mandei e-mail, porque n�o sei o seu e-mail... Mas o cora��o apertou, a saudade doeu e as lembran�as trouxeram mais uma vez a presen�a de uma amizade que nunca morre. 4. Pequena Gigante
P� ante p� eu me levantava da cama e ia devagarinho, descobrir de onde vinha aquele barulhinho estranho de folhas de �rvore caindo. Quando abria a porta, podia ver, � meia-luz da cozinha, uma figura magra e pequena debru�ada sobre a mesa, passando p�ginas... L� estava ela, mergulhada nos livros, os mesmos livros repetidos que tantas vezes leu. Livros usados que comprava no sebo ou que emprestava de algu�m. Edi��es antigas que ela guardava como se fossem tesouros, e livros de fam�lia que pareciam m�gicos pra mim. Durante toda a inf�ncia eu me deparei com esta cena: minha m�e sentada, lendo e escrevendo, na sua pouca instru��o, no seu infinito discernimento de mulher moldada pelas dificuldades da vida. E esta influ�ncia perene desperta grande gratid�o em meu cora��o. Ela era a sabedoria em pessoa. Seus l�bios calavam o que os olhos insistiam em me dizer, e ainda hoje eu tento desvendar o que aquele olhar escondia. O contato com a leitura e a escrita foi decisivo para nosso futuro, meu e de meus dois irm�os mais velhos. N�s nos libertamos de todo o estigma que as crian�as da periferia carregam, fadadas a ser menos, simplesmente porque um sistema assim determinou. Nossa m�e rompeu esta barreira para n�s, e nos ensinou a levantar a cabe�a, a n�o ter medo de olhar nos olhos, nem de falar de igual para igual com qualquer pessoa, e de reconhecer a necessidade de sempre aprender mais. Hoje tento seguir seu exemplo, e exercer sobre meus filhos a mesma influ�ncia inspiradora da qual tive o privil�gio de desfrutar. Nesta tentativa de me igualar a ela � que descubro minha fraqueza. Ela que, com seus quatro anos de estudo regular, p�de transformar nossa vida para sempre com seu gosto pela leitura, sua capacidade de racioc�nio, seu dom�nio impressionante da l�gica e da coer�ncia textual quase instintivas, me presenteava muito mais com livros do que com brinquedos. Eu com minha cara feia, que esperava mais uma boneca... Jamais poderia medir o tamanho daquele gigante que cham�vamos de m�e. Ela se foi e deixou um legado do qual temo n�o dar conta: passar para meus filhos os valores e as prioridades que a mim foram deixados. E o que me faz vacilar � reconhecer que o efeito do meu exemplo ter� neles a mesma for�a que o dela sobre mim. Pequena em sua estatura, gigante em sua sapi�ncia, passou pela minha exist�ncia sempre despertando em mim algo de grande, maior que eu mesma, porque ela assim me enxergava, posto que me amava. E se eu, em minha fraqueza, conseguir alcan�ar metade de tudo o que ela ensinou, tudo o que fez e tudo o que amou, terei cumprido com honra minha miss�o de m�e. 5. Adeus a Um Vira Latas
Meu filho mais velho, como a maioria dos meninos da idade dele, � f� do Homem Aranha. Quando ele e o ca�ula ganharam um filhotinho de cachorro, batizaram-no de Peter Parker. Achei que um animalzinho faria bem aos dois e seria uma fonte de conforto, nos primeiros meses ap�s minha separa��o. Mas o bichinho n�o durou muito. Contraiu uma doen�a dessas que d� em filhotes, e n�o pudemos fazer nada. Quando morreu, foi um baque para os dois, e eu fiquei preocupada... Na mesma semana, ao abrir a porta da sala, dou de cara com uma vira-latas amarelada, daquelas bem sem-vergonha mesmo, abanando o rabo pra mim. Tentei espantar antes que os meninos vissem, dei vassourada, joguei �gua, e nada. Ela n�o sa�a. Bom, meus filhos acordaram, viram, fizeram aquela festa, e em seguida a pergunta que eu temia: �A gente pode ficar com ela m�e? Deixa...� Com aquelas carinhas, imagina... Nem preciso falar o resto. Mas eu fui firme: �Mas voc�s dois � que v�o cuidar dele, dar comida, e limpar a sujeira!� A cadela, apesar da insist�ncia dos meninos, queria mesmo era ficar comigo. N�o desgrudava de perto de mim um minuto, e passou a me seguir por todo canto. At� na escola onde eu dava aula ela ia atr�s de mim. Mary Jane, como a chamamos, ficou conhecida no bairro � por onde eu passava � pois se tornou a minha sombra. E assim foi, aos poucos, passando a fazer parte da fam�lia. Cadela boa, muito boa esta. Umas coisas assim que a gente n�o sabe explicar. N�o sei de onde veio, por qu� cismou com a minha cara, mas o fato � que ela ficou ali, e conseguiu preencher um vazio deixado pelo outro animal, suprindo assim a car�ncia emocional que eles carregavam. Quando a Mary Jane ficou prenha eu fiquei muito aborrecida. J� era dif�cil cuidar de duas crian�as sozinhas, imagine de uma cria de filhotes. Era s� o que faltava... Os meninos acompanharam a prenhez, ansiosos. Todo dia iam medir a barriga da cadela, imaginar os filhotes, escolher nomes. Combinamos que �amos dar todos menos um. Nasceram cinco. Meus filhos acompanharam o parto, atentos, preocupados, de olho em tudo e fazendo mil perguntas. Foi um acontecimento! Quando um deles morreu, Mary Jane veio na porta da sala avisar. Bateu o rabo na porta at� eu sair pra ver. Olhou em dire��o a ele e esperou que eu retirasse o corpinho, de cabe�a baixa. Pela manh� foi uma tristeza. At� agora, ao todo, morreram tr�s. Acho que nasceram fraquinhos, provavelmente a primeira cria da m�e. Hoje eu enterrei o terceiro, meus filhos em volta, olhos marejados, posi��o de rever�ncia, enquanto eu cavava o buraco e depositava o bichinho gelado l� dentro. Mary Jane ficou de longe, virada para a parede, esperando eu terminar o servi�o. Enquanto eu acabava de tapar a pequena cova, fiquei pensando que id�ia est�pida foi deixar aquela cadela ficar em casa. Devia t�-la expulsado no primeiro dia, uma cadela de rua, que estava me dando muito trabalho e dor de cabe�a, vivia com pulgas, e agora aqueles filhotes pra entristecer meus filhos e sujar minha varanda. Ao procurar pelos dois, vi que estavam l�, em volta dela, fazendo carinho na cabecinha tentando consol�-la. Cada um segurava um filhote que restara no colo, enquanto que com a outra m�o, acariciavam-lhe o pelo, com tristeza. Ouvi o mais novo dizer: �A gente tamb�m gostava dele, Mary. Ele foi para o c�u dos cachorrinhos.� Parei e olhei por um instante aquela cena. Percebi ent�o que todo o trabalho que tive com aquela vira-latas e sua cria compensavam, pelas experi�ncias que meus filhos puderam viver, e pelas li��es de amor, cuidado e respeito que tive a oportunidade de ensinar. 6. Mentiras no Deserto
Bem no meio da viagem, assim, de repente, eu tive que descer. Estava no meio do deserto, e a areia me queimou os p�s. Achei, � primeira vista, que n�o tinha como sobreviver. Aquele que me empurrou para fora disse que faria sombra, para que o sol n�o queimasse meu rosto. Era mentira. Com o tempo, minha pele tornou-se escura e grossa, e eu n�o precisei mais de sombra para me esconder. Por causa das lendas sobre o deserto, achei que encontraria a l�mpada do Aladim. Seria s� esfreg�-la e pronto, estaria livre. Mas esta hist�ria que me contaram tamb�m era mentira. Eu precisava continuar andando, ainda que com os p�s em brasas. Meus p�s � antes finos e macios � tornaram-se �ridos como os de um camelo. E j� n�o do�am mais, na areia escaldante. � noite, no deserto, faz frio e a escurid�o � densa. Disseram-me que haveria uma tenda pra me proteger. N�o havia. Ao longe, caravanas passando, as pessoas me acenavam, sorridentes. E de longe diziam: �Isso mesmo, continue. Parab�ns, j� andou bastante.� E sorrindo seguiam, fazendo festa, sua jornada. E eu fiquei. Disseram-me que atr�s daquela �rvore morta havia um banco onde eu poderia sentar e descansar. Eu fui ver, e era mentira. Disseram que tinha um o�sis no meio do deserto. Mas era mentira. Tinha s� o deserto mesmo. E eu aprendi a lidar com a sede. Aprendi a superar meus pr�prios limites. Aprendi a lidar com a fome, com as miragens, com as vertigens. No deserto, quase tudo � mentira. A �nica verdade � voc� mesmo. O resto todo � ilus�o. Por isso poucos sobrevivem a ele. Perdem-se no meio das miragens, procurando tesouros que nunca existiram, apenas na cabe�a de viajantes afetados pelo sol, e dos espertos que n�o v�o pensar duas vezes antes de se aproveitar da sua ingenuidade. Cuidado com os espertos que te oferecem sombras. Invariavelmente � mentira. O deserto, com suas mentiras, � o �nico lugar capaz de fazer voc� conhecer sua pr�pria verdade. A verdade de quem voc� realmente �. Pois � a �nica que, de fato, importa para salvar sua vida. Ao sair do deserto, aprendi muito sobre mentiras, ilus�es e miragens. Hoje, no entanto, eu sei quem sou. Quem passa pelo deserto com �gua, sapatos, sombra, descanso, camelos, o�sis e l�mpadas de Aladim, n�o conhece o deserto. E consequentemente, n�o conhece a si mesmo. Ainda tem um bocado de areia entre meus dedos. �s vezes corta, e ainda d�i. Mas eu n�o tenho mais medo do deserto. Porque aprendi que sou mais forte do que ele... E vou sobreviver. 7. Adulto � Que Complica as Coisas
O menino, grudado na televis�o, fica fascinado por aquela torrente de propagandas de brinquedos, e torra a paci�ncia da m�e: - M�e, voc� compra? - M�e, voc� compra? - M�e, compra pra mim? Todo dia � a mesma coisa... A m�e, para n�o alongar o assunto, d� sempre a mesma resposta: - Compro, filho, compro. A crian�a, feliz, se contenta com a promessa. E continua a pedir. Um dia, a m�e atarefada, perde a linha e responde: - Poxa, meu filho, voc� pede coisas demais! N�o tem condi��o da mam�e comprar isso tudo, � muita coisa! Como voc� acha que a mam�e vai poder comprar isso tudo? N�o d�! A crian�a, muito s�ria olhando a m�e, pensa, pensa, e finalmente resolve: - � f�cil m�e. � s� levar uma sacola! (Por que gente grande complica tanto as coisas?) * caso-verdade! 8. Tesouros
Esta � uma hist�ria para crian�as. As pessoas grandes n�o podem admir�-la, pois elas s� admiram aquilo que podem compreender. As pessoas grandes s�o assim... Por isto, deixe que a crian�a que existe dentro de voc� leia desta vez. L� no interiorz�o de Minas Gerais, onde nasceu minha av�, as pessoas iam cedo pra cama. N�o havia muito o que fazer depois que o sol se punha, pois, sem energia el�trica, a luz da lamparina era fraca e dava ainda mais sono. Depois de uma viola em volta da fogueira, ou uma conversa � toa na soleira da porta, o jeito era ir dormir. Ao amanhecer, mais um dia de trabalho na ro�a. Na escadinha que ia dar na porta da sala, minha m�e ainda bem menina, observava o c�u. De repente, viu surgir um objeto cor de fogo que riscou o breu e foi cair l� na mata. Num disparo de corrida chegou l�, antes mesmo que sua m�e percebesse. Descobriu o objeto estranho num buraco raso no ch�o. Era uma pedra lisa e negra, e estava ainda quente. Com cuidado recolheu-a e a levou pra casa. Tentou contar aos adultos, mas nenhum deles acreditou no que ouviu. Como ningu�m lhe dera cr�dito, minha m�e deixou a hist�ria de lado, e o pedregulho ficou rodando por l� uns bons meses, �s vezes em cima da prateleira, �s vezes no ch�o, segurando a porta. Um dia, apareceu um amigo da fam�lia, homem muito estudado, da cidade grande. Era daquele tipo de homem que para pra escutar os pequenos. J� notou que quanto mais s�bia � uma pessoa, mais aten��o ela d� �s crian�as? E foi assim que minha m�e, sentada em seu colo, narrou-lhe a estranha hist�ria da pedra preta que caiu do c�u. Finalmente algu�m acreditara nela! Nenhum adulto ainda tinha parado para lhe ouvir direito, assim como o Pequeno Pr�ncipe com o seu elefante e a sua jib�ia. Vendo a pedra, o senhor pediu-lhe em confian�a que deixasse lev�-la � cidade, �para os homens entendidos analisarem�. Foi embora o homem com o tesouro esquisito de minha m�e na bolsa, sumindo durante meses. Ela pensava que nunca mais o veria de novo. Acabou � como era pequena � por esquecer a hist�ria. Mais de um ano depois, qual n�o foi a surpresa ao ver aparecer de novo o amigo, dando-lhe not�cias da sua pedra-do-c�u: tinha realmente mandado para an�lise num laborat�rio, e, ao ser aberta, descobriram que seu interior era de ouro puro! O senhor, muito honesto, viera dar satisfa��es. Estava desconsolado e muito envergonhado. Ele havia mandado fazer um descanso de caneta e uma bela caneta de ouro, para dar de presente � minha m�e. Mas sua mulher, ingrata, vendo que era coisa de valor, juntou as trouxas, passou a m�o no presente e escafedeu-se. Ficou ele sem a mulher e minha m�e sem a caneta e a pedra. Como dizia Exup�ry, as pessoas grandes sempre precisam de explica��es. Por isso decidi acrescentar este par�grafo, para a pessoa grande esperneando dentro de voc�... Talvez n�o houvesse ouro. Talvez o objeto de valor fosse o pr�prio meteorito. Talvez o tal amigo tivesse desejado florear a hist�ria, para uma crian�a. Mas seja qual for a verdade, eu prefiro ficar com a que ela me contou, pois � a mais bela, e � a que, por muitas vezes, me fez sonhar. Ao refletir sobre o significado desta hist�ria que ouvi tantas vezes enquanto crescia, percebo que ela est� repleta de tesouros: uma �poca em que as fam�lias, sem tecnologia, ainda conversavam, e as crian�as contemplavam o c�u. Um tempo em que as pessoas ainda dormiam. Um velho costume de narrar hist�rias do passado aos filhos, o qual estamos perdendo. E o maior deles: um homem s�bio que apesar de seu grande conhecimento � ou por causa dele � ainda tinha tempo e interesse de parar e ouvir uma crian�a... Que guardava um tesouro. Quais tesouros nossas crian�as estar�o guardando, esperando que algu�m as escute? Quais tesouros estamos guardando por deixarmos de compartilhar nossas lembran�as com aqueles a quem amamos? Quantos tesouros estamos deixando de enxergar por n�o termos mais tempo de olhar para o c�u? 9. Ele Quer Ser Crian�a
Agora, no meio da tarde, eu estou ensinando esta crian�a a ler. N�o me cabe julgar a carga que ela tr�s consigo, ao adentrar os muros da escola. Por outro lado, � imposs�vel ignorar esta realidade. Misturado aos textos, palavrinhas, m�sicas e aquela papelada toda, ele me parece uma crian�a comum, assim como o meu filho de sete anos. Faz um esfor�o tremendo para ler as palavras que, para ele, ainda s�o t�o confusas: sa-pa-to. Toca o sinal, e depois do beijo de despedida o menino ainda permanece. Ele n�o quer ir embora, e pede para ajudar a organizar a sala para a aula de amanh�. Guarda as folhas, arruma as cadeiras, limpa o quadro. Senta-se e fica me observando preparar mais uma li��o. Por que ele n�o quer ir pra casa? Aos poucos, vou me inteirando do mundo em que esta crian�a vive. Ele n�o tem casa. Mora num abrigo para crian�as abandonadas, no bairro ao lado, com mais dezesseis crian�as e adolescentes. Quando anoitece, dribla o vigia e foge, em dire��o ao centro da cidade. Algumas professoras j� o viram no sinal, fazendo malabares pra ganhar um troco. Na aula passada ele veio, orgulhoso, com uma garrafa de refrigerante, oferecer-me um copo: �Toma, professora. Eu comprei com o meu dinheiro.� Mais um abra�o, mais um beijo. O que parece, ao primeiro olhar, � que esta � uma crian�a amadurecida pelos revezes da vida. Mas o contato di�rio mostra-me que a car�ncia afetiva faz dela muito mais crian�a para a idade que tem. Que diferen�a posso fazer na vida de quem � aos onze anos � j� enfrentou muito mais desafios do que eu aos trinta? Como despertar a intelig�ncia de um menino que h� tanto j� caiu na feroz luta pela sobreviv�ncia? Ca-dei-ra. Cadeira. Seus olhos divagam, ele n�o me enxerga. N�o est� aqui. Em que estar� pensando... no abrigo? No sinal? Na m�e? Apesar das dificuldades, ele quer ficar. O ambiente amistoso e vivo da escola lhe faz bem. Ele � uma crian�a, e se sente atra�do por tudo que o desafia. Estar aqui � mais do que simplesmente aprender a ler, � ainda fazer parte, estar inclu�do no mundo, de alguma forma. � sentir agu�adas suas faculdades humanas, al�m do medo e da fome. E certamente, al�m da solid�o. Se lhe negam todos os direitos humanos, na escola ele ainda encontra algum. Para onde ele vai, depois que o port�o se fecha, n�o h� ningu�m que se responsabilize, nem pai, nem governo, nem institui��o alguma. Ao sair, n�o � mais crian�a, � adulto. Por isso ele fica. Porque ele quer ser crian�a. Entre uma li��o e um abra�o, n�o sei dizer qual dos dois � o mais importante na forma��o desta pessoa. Mas eu vou ficar aqui, e dar os dois. Por via das d�vidas. 10. Detesto a Barbie
Nunca tive uma boneca Barbie. Sei l� o porqu�. Acho que devia ser um brinquedo muito caro, ou ent�o minha m�e nem se ligava nessas coisas � preferia me dar um livro. J� mocinha, quando via minha sobrinha com a cole��o que tinha (23, se n�o me falha a mem�ria), eu n�o conseguia atinar porque � que eu n�o tivera ao menos uma, no meio de outras tantas bonecas. O fato � que eu cresci, sem saber a raz�o, com uma raiva enorme da Barbie. Ah, me dava um sentimento ruim toda vez que via uma pela frente, que vontade de quebrar! E nunca entendi o porqu� daquilo. N�o seria pelo cabelo perfeito, sem uma ponta dupla e louro ainda por cima, sem nem precisar enfrentar hidrata��o nem chapinha, ou pela cintura irritantemente fina e o quadril enorme, pois desde antes de conhecer a ditadura da beleza eu j� me enfurecia contra a boneca-patricinha. Quando li numa revista que nenhum ser humano sobreviveria se tivesse as medidas do corpo dela, comemorei! Foi s� depois de adulta que, remoendo fatos passados, vim a compreender aquele sentimento. Ao morar na casa de uma tia por alguns anos da inf�ncia (para crian�a, cada ano � um s�culo), sempre andei buscando me encaixar aqui e ali como filha, mesmo sabendo, no fundo, que aquilo n�o era poss�vel. Apesar de muito bem tratada e amada, quest�es relacionadas a aceita��o e amor s�o coisas que marcam o cora��o de uma crian�a. Pequenas cenas machucam, e quase sem exce��o, permanecem para sempre. Um natal em particular ficou marcado. Foi aquele em que minha prima, mais nova que eu, ganhou a t�o sonhada boneca Barbie. Ainda me lembro dela, linda num vestido rosa de cetim, numa caixa brilhante. Lembro direitinho da prima desembrulhando o presente, os olhos brilhando, o sorriso grande de alegria. E meus olhos procurando o meu presente. Logo veio, um embrulho fofo, daqueles que de longe a gente v� que � roupa � e crian�a detesta ganhar roupa. Quando abri, era um conjuntinho muito bonito, um daqueles que minha tia vendia. Claro que agradeci, experimentei, e at� gostei. Mas naquela noite, chorei at� meu nariz entupir e dormir de boca aberta, de tanto solu�ar. Ah, eu nem gostava tanto assim daquela boneca magrela. Mas naquela ocasi�o, significou mais para mim. Representava minha condi��o de n�o-filha. Sen�o, eu tamb�m teria ganhado uma igual, e n�o uma roupa que, ainda que bonitinha, tinha sido tirada do meio de uma d�zia, numa sacola. Outros natais vieram, com tia, com m�e, com presentes e momentos felizes, de amor e gratid�o, e eu fui crescendo. Mas aquela cicatriz permaneceu indel�vel no meu cora��o. Nesta vida corrida, onde as obriga��es e cobran�as quase nos sufocam, muito pouco percebemos as marcas que vamos cravando nas crian�as que amamos. De uma forma ou de outra, mais de vinte anos depois... Detesto a Barbie. 11. Espelho Velho
A imagem que vemos no espelho n�o � apenas a estampa exterior de n�s mesmos que enxergamos, aquela que primeiro nos apresenta. Ela guarda marcas e impress�es deixadas pelo tempo, sem as quais n�o ser�amos o que somos hoje. Cada um de n�s � um amontoado de lembran�as, um quebra-cabe�as cujas pe�as s�o as experi�ncias vividas refletidas em nosso comportamento e imagem de agora. Por esta raz�o, pessoas de diferentes classes sociais e cultura procuram variados recursos para buscar, no passado, explica��es e solu��es para suas mazelas atuais. Vemos gente buscando a espiritualidade, as terapias de regress�o, o hipnotismo, todas em busca de respostas que as ajudem a superar medos, v�cios, limita��es, desafios pessoais. Muitas delas descobrem - com surpresa - conflitos escondidos, velados, nunca imaginados, guardados por muitas vezes desde o �tero. Ao confrontarem seus pr�prios espinhos, a maioria delas consegue a cura para suas feridas. De igual maneira, nosso pa�s guarda na mem�ria nacional os aspectos do passado, e estes constituem a cultura de que hoje fazemos parte, e nos influencia dia-a-dia � medida que constru�mos nosso futuro. A coloniza��o de explora��o a que este territ�rio foi submetido, e as marcas da corrup��o imperial ainda se fazem presentes em nosso cen�rio, influenciando e muitas vezes determinando as escolhas que fazemos hoje, quando elegemos nossos dirigentes e decidimos os rumos pol�ticos do pa�s. Mais do que isto, esta cultura se reflete no cotidiano, nas pequenas decis�es que tomamos em nossa vida, as quais, somadas, formam o ide�rio nacional. A inconsci�ncia coletiva nos faz caminhar como um rebanho sem pastor, f�cil de ser manipulado e levado em qualquer dire��o. Assim, nosso futuro vai sendo tra�ado pelas m�os de outros. O despertar da consci�ncia tem suas ra�zes na educa��o. � atrav�s dela que passamos a ter condi��es de analisar o passado e medir sua influ�ncia no presente, podendo assim projetar um futuro onde o peso do determinismo cultural seja sentido apenas at� onde decidirmos permitir, ou at� onde nos seja ben�fico. As marcas do passado que todos n�s carregamos, seja individual ou coletivamente, s� podem ser modificadas e abandonadas depois que nos conscientizamos da exist�ncia delas. Do contr�rio, o futuro ser� apenas uma reprodu��o incessante dos equ�vocos anteriores, com maquiagem nova. Conhecer a Hist�ria e sua influ�ncia em nossa cultura s�o condi��es primordiais para que os erros do passado n�o se repitam. 12. Quanto Vale a Sua Inoc�ncia?
Como j� foi dito em outro texto*, o que importa n�o � quanto vale uma vida humana, mas quanto uma vida humana pode render. Em dinheiro. A pandemia tomando conta do pa�s, pessoas morrendo no corredor por falta de leitos, hospitais lotados sem mais espa�o para isolamento, e olha que bonito: as prefeituras, os Estados, as institui��es federais, todos fechando as portas e adiando a volta �s aulas. Preocupa��o com nossas crian�as e nossa juventude? Bom se fosse. Como ainda no atual est�gio de desenvolvimento em que se encontra nosso povo, pode a maioria continuar t�o inocente? E n�o � a maioria sem recursos. � a maioria com grana no bolso para gastar. � certo que, com o adiamento das aulas, os governos economizam um bocado. E de quebra, calam a opini�o p�blica. A rede municipal da minha cidade foi a �ltima a parar, pressionada pela popula��o e por todas as outras redes j� paralisadas. Melhor n�o contrariar o povo. No entanto, os shoppings continuam a todo vapor, shows lotados de cantores de ax� durante todo o fim de semana, onde jovens b�bados se acotovelaram sem espa�o nem para caminhar. Qual � a dist�ncia de seguran�a mesmo? Ah, um metro. Mas nem parece. Os cinemas n�o podem parar de lucrar, supermercados abarrotados e at� um circo est� excursionando na cidade. Claro que n�o poderia faltar divers�o para o povo esquecer a gripe... Afinal, o que um bom capitalista faz em p�nico? Ou compra, ou come. Para qualquer uma das duas op��es, vai dinheiro. Enquanto isso, reportagens s�o colocadas no ar em todos os meios de comunica��o divulgando os cuidados pessoais com a higiene, transferindo para o cidad�o comum o que � de responsabilidade dos governantes, numa situa��o de emerg�ncia pand�mica. Num show com mais de dez mil pessoas lotando um espa�o at� ultrapassar o limite, convenhamos que m�os limpinhas n�o adiantam muito. Mas liberaram. E d�-lhe cerveja. Depois de cair de b�bado, acho dif�cil algu�m lembrar de virar pra l� na hora de espirrar. Mas o importante � que segunda-feira ningu�m vai estudar. E a�? Quanto vale a sua inoc�ncia? Vale uma cervejinha? |
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